quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Doce Dália e Motel Overdose – Bar Taliesyn (Florianópolis) – 14.11.2011

Comentário publicado anteriormente no Facebook e revisado.


Acabo de assistir a dois shows no bar Taliesyn e estou com a alma exausta no bom sentido, ou melhor, no ótimo sentido! Como é bom ver rock de alta qualidade. As bandas foram: Doce Dália – que eu ainda não conhecia – e os meus camaradas da Motel Overdose. O ótimo bar Taliesyn mais uma vez se mostrou um espaço muito bom para os artistas que querem mostrar um trabalho alternativo.

A primeira banda foi a Doce Dália. Fiquei impressionado com a massa sonora que a banda é capaz de enviar. Formada por 2 moças (guitarra e batera) e um baixista, o punch da banda é algo fora de série! A guitarra quase crua da Carol (com apenas um overdrive/boost da NIG) empurra um som com alta qualidade (claro, bom ressaltar que ela utilizou o amplificador do guitarrista da Motel – um Fender valvulado). Mas destaco que a definição sonora até poderia ser resultante do equipamento, mas de nada adiantaria se não fosse a qualidade da musicista. Carol toca com muita nitidez e foco. Solos com grande ataque e projeção sonora, o que, na minha opinião, soa mais alto do que grande parte dos virtuoses que muitas vezes parecem tocar com “medo” da guitarra. A palhetada da guitarrista é forte, precisa e simples – e por isso tão eficiente. 
A Dália em estudio

A baterista Sara tem uma pegada que deixa muito barbado no chinelo. Desde que ouvi o Hole constatei que o rock pesado poderia, sem dúvida, contar com uma cozinha feminina, afinal, não é a testosterona que faz o peso – e sim o pulso mesmo. Sara toca com vontade e pode ser ouvida à distância. Tenho pena da bateria porque o instrumento é castigado por uma pegada fora de série. E o baixista Leandro completa a cozinha com enorme competência. Também canta – junto com Carol – e os graves de seu instrumento fecham perfeitamente com a proposta da banda. É o suporte necessário para que as duas possam alçar seu vôo, e, diferentemente das bandas onde só as estrelas brilham, Leandro junto com as moças participa do grupo em pé de igualdade.
Sara, Leandro e Carol - Power trio.

Coragem a Doce Dália teve ao interpretar a lindíssima “Ziggy Stardust” do gênio David Bowie. Melodia complicada, arranjos complexos e a pegada é necessária para que o som saia limpo. O repertório é completado por várias outras músicas com igual peso como “Cherry Bomb” das Runaways. Adorei o show – espero vê-los mais vezes.
A "Doce" (porém "venenosa") ao vivo.


A Motel Overdose então, já conhecida (e comentada por mim tanto no Facebook como por aqui mesmo – é só ver o comentário anteiror) faz um rock muito bem tocado, como já falei antes. É difícil definir de forma diferente um repertório já analisado por mim sem me repetir, mas, algumas coisas posso acrescentar: desta vez o timbre da guitarra estava mais aveludado – os graves mais presentes. O delay e o wha sempre são usados com senso de oportunidade, ou seja, na hora certa. Os Double-stops com wha dão a pegada roqueira ao tom. Em suma, como já comentei, o vocabulário do guitarrista “Batata” é muito vasto.

"Batata" - "fritando"!


O baixista MLeonardo com grande fluência e pulsação faz o som do instrumento soar muito redondo. Vale o show. As notas saem claras e musicais. Márcio o batera estava com o “demo” no corpo. Sentou o pau na bateria (aliás, o instrumento “sofreu” nessa noite. Gritou como um motor em alta aceleração. Com certeza não eram músicos de jazz que estavam ali...)! Fez valer a noite. O “Bixo” pegou (com “x” mesmo)! No final os caras detonaram os instrumentos no velho estilo The Who fazendo da performance uma catarse violenta. Muito bom mesmo! A energia brotava do palco.
A Motel ao vivo...

...e em estúdio.

Não fiquei em casa vendo o SWU, mas, agora vou ver a gravação em dvd. Não me importo nem um pouco. Ali, na cara, duas bandas com sangue para dar fez a noite valer muito mais, até mesmo pelos harmônicos naturais que passam pelo corpo de quem assiste no local do que a performance distante assistida pela TV (mesmo que no SWU as "estrelas" sejam gigantescas). Ao vivo é ao vivo! Na cara! Nota máxima – para as duas bandas!

Motel Overdose e Nocet – Bar Taliesyn (Florianópolis) – 20.10.2011

Comentário publicado anteriormente no Facebook e revisado.

No dia 20.11.2011 retornei aos velhos tempos. Após quase 10 anos sem visitar minha cidade natal – Santa Maria (RS) uma banda de lá veio trazer o seu bom rock’n roll para cá, refiro-me à Nocet. Junto com a Nocet tocou uma banda local que tem na sua formação outro amigo meu de Santa. Falo da Motel Overdose. A noite foi gratificante e fez eu me sentir novamente conectado com o universo da música ao vivo. Com grande satisfação passo a comentar o show que presenciei no dia 20.10.2011. Então, vamos ao comentário:

Entrar no Taliesyn já é um show à parte...em princípio não tem qualquer informação de que o bar está aberto (pelo menos na hora em que fui). Subi uma escada e lá em cima estava um “pub” no melhor estilo Santa Maria, POA, hard rock...e, claro, lembrando o clima e tradição dos bares europeus. Me senti em casa logo de cara. Imediatamente encontrei os camaradas e aquela nostalgia voltou com toda força, parecia que os últimos 10 anos foram apenas 10 dias atrás.

Bem, os shows: já aviso que posso ser muito suspeito para falar, pois, além da amizade que tenho com os músicos já vivi muito nesse meio e sei bem as dificuldades e as condições em que tocamos, logo, não vou fazer um comentário muito crítico em relação ao som, ao local, ao volume e etc... Já estou acostumado com o clima e fico bastante empolgado mesmo! Ainda mais vendo uma turma que mantém viva a chama do velho e bom rock’n roll (e que eu próprio busco manter acesa na medida do possível).

A Motel Overdose abriu a noite - som repleto de contrastes dinâmicos

A Motel Overdose abriu a noite. Imediatamente ao soar dos primeiros acordes e riffs de guitarra já senti que vinha uma proposta alternativa, e, com bastante sangue nas veias. E não deu outra. Riffs bem construídos sob uma condução vocal em grupo bem coesa. O som é bastante preenchido e a banda demonstra maturidade de quem já toca junto há alguns anos. A proposta musical é muito legal - não consigo definir, mas senti uma aproximação com o senso dinâmico do “Red Hot Chili Peppers” como se o “Zakk Wylde” e o “Robin Trower” estivessem nas guitarras. A proposta é bem moderna e vale a pena escutar o som redondo, forte e pulsante da Motel Ovedose. No que se refere ao  trabalho de guitarras, este é muito bem feito. Um verdadeiro desfile de técnicas: ligados, hammer-ons, bendings, slide no braço com a mão direita em simultâneo com ligados de esquerda...o vocabulário guitarrístico é bem farto...prá qualquer guitarrista sair satisfeito.



Vamos aos outros 2 músicos: o baixista MLeonardo é uma personalidade à parte, com um baixo que não consegui decifrar a marca (mais tarde me foi revelado que se tratava da marca Framus – foto abaixo encontrada no site http://www.crazeeworld.plus.com/general/gear_ian.htm ), mas, tanto o instrumento como o músico apresentam um som muito limpo, vintage, grave, carregado de notas cheias. É o acompanhamento (e o personalidade) de que a banda precisa).

Baixo da Marca Framus

E o baterista Márcio - velho camarada das batalhas pela boa música em Santa - cara eu não sabia que ele estava tocando tão alto. É isso aí véio! Tem que sentar a mão! Jazz é jazz, blues é blues, MPB é MPB e ROCK É ROCK MESMO! O fraseado da batera estava impecável. Gostei em particular do som dos pratos, como comentei ao final do show “há muito tempo eu não ouvia o som do instrumento direto no ouvido”.



Bem, a Nocet, o que falar da Nocet?

 "Warriors of the rock"...acho que é o melhor título para eles. Tantos anos de estrada, 3 cds. É muita batalha... E muitas modificações na formação. Agora Molina e Fabrício contam com Sino na guitarra - o que faz a banda adentrar em um novo terreno. A título de composição a Nocet continua pela mesma trilha - músicas elaboradas, melodias quebradas, modulações para tons afastados, seguido a escola dos progressivos pesados, mas, com bateria moderna...na linha Pantera e Metallica. O som continua coeso.

Nocet - composições com modulações para tons afastados

Marcos continua um "show man de primeira". Interpreta até mesmo artisticamente as apresentações das músicas. O som do baixo é grave e definido. O show não fica monótono. Pelo contrário, os contrastes entre os temas despertam interesse a ponto da plateia parar de “agitar” para ouvir quando se trata das composições da banda.



Sino trabalha muito as texturas da guitarra. Se na Motel a guitarra tinha uma distorção mais pesada no sustain, na Nocet a guitarra é distorcida para outra “galáxia”. Soa bem clara, limpa, cristalina (e atenção não há nenhum tipo de comparação entre os dois músicos nesta afirmativa, pois se trata de estilos bem diversos).

As texturas da guitarra do Sino se devem, também à sua opção por pedais. Um V-Wha da e um Digital Delay da Boss (marca que uso e recomendo desde agosto de 1985), Um Ibanez  tube screamer (distorção notória pela clareza e limpeza nos harmônicos) e um booster da Seymour Duncan, pedal que sempre tive muita curiosidade para ouvir ao vivo e que se demonstrou um dos melhores reforçadores do mercado. (Havia outro pedal que não sei qual é - qual é ele Sino? Tenho a impressão que era uma espécie de vibrato). Esses efeitos associados a uma Peavey Tele com 2 single coil emitem uma sonoridade muito limpa. Só acho (sugiro – certo Sino?) a inclusão de uma distorção mais metal pra o cover do Metallica (distortion ou metal zone).  Mas, é apenas uma sugestão porque uma das coisas mais legais em ver um cover é e quando a banda faz sua própria releitura da música.




E prá fechar o comentário sobre este mesmo tema, releitura foi exatamente o que a Nocet fez ao tocar em grande estilo a gigantescamente bela “Bad Romance” da genial Lady Gaga.
Eu, fã da Gaga, adorei – o DW do Fabrício soa perfeito no fim dos refrãos. O baixo empresta à composição o peso que a Gaga poderia ter feito para deixar o som mais “hard”. Sem batera eletrônica a estrutura da música da Lady se revela como ela é: uma bela e grande canção pop – e a Nocet só deixou mais evidente esta característica.

Prá finalizar lavei minha alma, revi os camaradas, ouvi som como há muito não ouvia e me diverti muito. A galera precisa se reunir mais vezes - e um concerto de rock honesto, visceral e pesado é a melhor coisa pra confraternizar e relembrar os velhos tempos, que, ainda bem, estão longe de terminar. Abraços para ambas as bandas que, porque sou muito suspeito, não vou dar nota, mas conceituar como honesto, pesado, forte e dinâmico – como o bom rock deve ser!    

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Discos que mudaram minha vida - parte II

Dando continuidade à reorganização da minha discoteca e, simultaneamente, fazendo uma retrospectiva dos meus 30 anos de Rock’n Roll continuo com os discos que mudaram minha maneira de ver a música...



11.      Rush – Permament Waves:


Certo, sei que o “Moving Pictures” pode ser considerado o grande álbum do Rush, mas não foi ele que comprei quando entrei numa loja em Santa Maria e pedi "o disco mais 'pauleira' que eles tinham". Ao ver a capa achei que se tratava de um LP da Kate BUSH, mas quando ouvi o “Spirit of the Radio” percebi a abissal diferença que separava os dois estilos (Kate BUSH e RUSH). A citada “Spirit of the Radio” ainda é uma das letras mais lindas do RUSH;

12.      UFO – The wild, the willing and the innocent:




É dificil escolher apenas um disco da minha banda faavorita o UFO! Ocorre que já postei o “Obsession” como o melhor disco de heavy metal de todos os tempos e seu respectivo comentário. Então para aproveitar o espaço tenho que citar outro disco que me marcou muito. Até 1981 eu só conhecia o “Obsession” e, quando chegou pelo correio "The wild, The Willing and the Innocent" confirmei de vez que era a banda com quem eu me identificaria nas próximas décadas...”Chains Chains” entrou em meus ouvidos como uma nave alienígena e me abduziu por completo - até hoje não me trouxe de volta...

13.      Heart: Heart.




Nos meados dos anos 80 - lá por 84 - havia um programa na TVE chamado "som pop" um dos primeiros programas da TV a passar clips na época. Muita coisa foi vista nesse canal. De Manfred Mann a Iron Maiden. Uma banda que me impressionou muito foi o Heart. “All About Love” foi a música que rodou. Desde então a linda voz da Ann Wilson nunca mais me saiu da cabeça...

14.      Triumvirat: Old Loves Die Hard:


Triumvirat foi uma banda significativa. Era considerada o “equivalente alemão do ELP”. O disco que me marcou deles trazia a balada "a cold old worried lady" Belíssima musica. Até hoje é emocionante ouvir a voz do Barry Palmer nesta canção. É para este disco que vai minha homenagem ao Triumvirat

15.      Aerosmith: Live Bootleg:



O Aerosmith nos anos 70 era bem mais honesto do que hoje em dia - apesar de ser uma banda que, ao vivo, mantém seu gás. Porém, quem quiser conferir como é que nos anos 70 o hard rock era realmente feito tem que conferir o "Live Bootleg". Esta obra-prima ao vivo merece uma audição especial depois do “Led II” e antes do “Hair of the dog” do Nazareth - o contexto está armado - só cuidado para não ficar viciado nos anos 70...

16.      Eloy: Time to Turn:



O Eloy sempre foi um grande representante do Progressivo alemão. Pois bem, o disco que me mostrou este estilo foi “Time to Turn”. Até recentemente, nos dias de inverno ouço no carro uma coletânea no Eloy. Ímpossivel não se emocionar ao tocar "end of an odissey" conforme meu irmão definiu: "uma guerra de teclados..."

17.      AC/DC: Highway to Hell:


Honestidade. Integridade. Fidelidade às raízes. Nada melhor para definir o AC/DC. Minha primeira compra do catálogo deles foi “Highway to Hell”. A voz rouca de Bon Scott e a distorcida guitarra do Angus simplesmente marcaram minhas férias naquele ano de 1980. Depois de anos, quando tocaram no Rock in Rio I, o Brasil viu (e ouviu) de perto os sinos do inferno...

18.      Motorhead: Ace of Spades:



Semelhante ao AC/DC e, também em um Rock in Rio - porém este ano -, os brasileiros, pela primeira vez em larga escala (pois eles já tinham tocado várias vezes antes aqui) puderam sentir, em clima de festival, o rock puro, pesado e direto de uma das mais altas (em termos de volume) bandas do planeta. Não adianta tentar, enroucar a voz, detonar as cordas vocais, fazer cara de brabo...só Lemmy é naturalmente assim! E a ascensão destes mestres do volume se deu com "Ace of Spades" - Classico absoluto! Talvez eu tenha sido o primeiro a comprar esta disco em Santa Maria, na Livraria do Globo do calçadão da Bozano - lá por '81.

19.      Marillion: Fugazi:




O progressivo renasce nos anos 80 misturado com o pop. E o Marillion sintetiza com perfeição esta fusão. A maturidade da banda é expressada em seu segundo álbum que, sobrevive à audição de qualquer fã do Genesis que queira apontar plágios. Fugazi é original, é Marillion e é um disco nota 10.

20.      Triumph: Allied Forces:



Triumph foi um oasis no início dos anos 70. Era raro ver algo com punch de hard rock por aqui. Em “Allied Forces”  o trio canadense mostrou como o Rush soaria se fizesse um disco em parceria com o UFO.

Por enquanto é isso aí - tem muito mais para vir na seqüência e importante frisar que ainda não comecei a comentar os cantores e cantoras em carreira solo e os guitarristas. Mas as boas coisas tem que ser curtidas assim, em pequenas doses, para serem saboreadas com calma....e Jack Daniel's of course...

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

LARANJA MECÂNICA: a violência inerente ao ser humano na sinfonia visual de Stanley Kubrick.

É difícil escrever qualquer comentário sobre Laranja Mecânica, por vários motivos: primeiro, considero o melhor filme da historia do cinema. Tenho predileção absoluta pela obra e considero Stanley Kubrick o melhor diretor de todos os tempos – com infinita vantagem sobre todos os outros. Isto, por si só, já retira dos meus comentários a isenção e a frieza necessárias para que o presente comentário seja considerado uma crítica. Bem, não me considero um crítico no sentido literal da palavra, mas, um comentarista, uma vez que me permito acrescentar elementos da minha subjetividade e gosto pessoal aos comentários que elaboro.

O segundo motivo é que “Laranja Mecânica” é uma obra tão complexa, tão cheia de significados, questionamentos, interpretações... que um comentário, por mais extenso que seja, jamais irá abordar todos os aspectos que o filme contém. Então, creio que preciso escrever tantos comentários quantas forem as reflexões que o filme me desperta. Retirando das minhas costas a responsabilidade de escrever um comentário único e definitivo sobre o filme, me sinto mais confortável para analisar a obra do Sr. Kubrick e do escritor Anthony Burgess.

Este comentário me foi “encomendado” pelo meu antigo amigo e companheiro de banda Fuga Pylla Kroth, que ao solicitar a matéria me criou a dualidade – fiquei feliz de ter a honra de comentar meu filme favorito, mas, paralisado com a responsabilidade de escrever estas linhas. Uma composição minha na banda Fuga homenageava o filme, logo, Pylla é uma das pessoas mais recomendadas para solicitar este texto. Bem, o comentário está aqui Magro Pylla!
Scanner do meu próprio exemplar
Primeiramente o livro: li várias vezes Laranja Mecânica e creio que vou ainda ler muitas vezes mais. Noticias relatam que a obra partiu de um caso verídico no qual a esposa do escritor Burgess realmente foi atacada e estuprada. Tal fato mexeu com as ideias do escritor que buscou exorcizar no papel suas angústias. E com isto o Estado levou sua parcela de culpa.

Sobre o filme – é interessante adentrar nos fatores histórico-sociais da época. No Brasil o regime militar impôs uma dura censura às atividades intelectuais. Faço um paralelo com o personagem do Henfil das histórias do gibi “Fradim”. Tratava-se de um padre que, como forma de se opor ao controle de pensamento, praticava condutas politicamente incorretas e maldades imperdoáveis. Era a forma que Henfil achou para questionar o controle ideológico mascarado pelos detentores do poder de: bom gosto, educação e ética. O “Baixim” do gibi do Henfil é outro personagem semelhante ao protagonista de Laranja Mecânica.
Baixim, do Henfil, outro grande contestador.

O filme teve sua exibição proibida no Brasil desde seu lançamento até o final de1978 época em que o regime militar soltava as amarras da censura e permitia a entrada de vários filmes no Brasil (como exemplo: Último Tango em Paris, Emanuelle, Decameron...).

Porém um aspecto importante é que para não haver uma total liberação do filme, os censores liberaram Laranja Mecânica com bolas pretas que tapavam os genitais expostos na tela. Tal atitude demonstrou o desconhecimento estético-filosófico dos censores, pois, a profundidade e a contundência da obra se dá ao nível das ideias e não da obscenidade sexual. Na mente dos censores a “indecência” do filme era mostrar pelos pubianos e não a crítica social, comportamental e política que ali estava.

Não vejo problemas em citar a história, haja vista que muitos já assistiram ao filme (CASO VOCÊ, LEITOR, NÃO TENHA ASSISTIDO AO FILME PULE ESTE PARÁGRAFO): Alex, adolescente mimado exercita sua perversidade ingerindo drogas estimulantes e saindo com seus amigos para linchar, violentar e roubar as pessoas que, ao acaso cruzam sua frente. Alex é tão desprezível que ao despertar antipatia dos próprios amigos eles lhe armam uma emboscada na qual o protagonista é preso. Na cadeia, visando reduzir sua pena, Alex aceita se submeter ao “Tratamento Ludovico”, uma técnica na qual seus impulsos agressivos são obstaculizados pela reação de dor física e náuseas causados por medicamentos enquanto Alex é submetido a exposição de cenas de violência. Intensamente maltratado, o corpo de Alex passa a reprimir seus instintos violentos e sexuais. Devolvido à sociedade, teoricamente “curado”, Alex se encontra tão indefeso que sofre vinganças brutais ao se reencontrar com suas vítimas. Todas demonstram serem seres humanos capazes da mesma brutalidade que o protagonista. Renegado pela família e intensamente agredido Alex passa ser porta voz do governo, criticado pelo programa de reabilitação ao qual Alex foi submetido. E assim, Alex é utilizado para servir à propaganda política e, com o tempo, é retirado o manto que coíbe seus instintos violentos, fazendo renascer, ainda que em sua mente, seus talentos inatos.

Enquanto ideia, Laranja Mecânica discute em profundidade a violência existente no “Id” que Freud afirmava existir em cada um de nós. Tais instintos seriam amplamente manifestados caso não fossem coibidos pela empatia e pelos padrões sociais. Os personagens agredidos por Alex são implacáveis em sua vingança e, por óbvio, todos nós entendemos que Alex é merecedor do castigo. Essa abordagem questiona, na realidade quem somos nós e, até que ponto e intensidade o castigo é realmente para punir o agressor e prevenir a futura conduta ou se no fundo estamos apenas buscando motivos para exercitar nossa violência além do limite necessário, sob a alegação de “defesa da moral e dos bons costumes”....

Enquanto filme, Laranja Mecânica é perfeito! Tecnicamente Kubrick está muito acima de qualquer outro diretor que vi. Destaco várias cenas (é difícil não destacar o filme inteiro, mas, vamos lá): a belíssima tomada em azul (estandarte do filme) no linchamento do bêbado sob a ponte; a magnífica cena do assassinato da dama dos gatos alternando a escultura do pênis e a pintura das bocas; a surra que Alex dá nos amigos em câmara lenta; O Tratamento “Ludovico”  em si; o teste pelo qual Alex passa no palco para se mostrar recuperado... Laranja mecânica é uma experiência visual e sonora de intenso grau de perturbação, mas recomendada apenas para quem tem estômago para aguentar a brutalidade grandiloquente e satírica estampada na tela.
Alex e seus "drugues" se preparam para a "velha Ultraviolência" 

A deformação visual do filme se deve ao fato de ser narrado em primeira pessoa. É como se o espectador, narcotizado pela substância “moloko” visse o mundo pelos olhos de Alex, ou como seus íntimos confidentes. A isto se deve o visual vertiginoso da película.
Alex, prestes a aplicar um "corretivo" na gangue

A música também merece destaque: a trilha sonora composta pelo genial e inovador Walter Carlos (hoje Wendy Carlos – após se submeter à cirurgia para troca de sexo), confere à obra a atmosfera necessária como se o espectador, sob alucinação, convertesse as belíssimas obras clássicas em sons eletrônicos.

A música original de Walter Carlos
Enfim, como dito acima, este é o primeiro de uma série de ensaio que pretendo fazer sobre aquela que parar mim é a obra máxima do cinema. Impossível abordar todos os pontos e sutilezas do filme em um único comentário. O filme se presta a todos os tipos de análises, tamanha sua complexidade e detalhamento.

Homenageei Laranja Mecânica em uma das minhas composições musicais (claro, ressalvada a mediocridade da minha composição em comparação à genialidade de Kubrick e Burgess). Laranja Mecânica sempre será muito presente em minha vida, não por me identificar com Alex - acho abominável seu comportamento - mas pela estética e a profundidade do estudo do comportamento humano constantes na obra.
A "conversão" de Alex em um "cidadão-modelo".

Minha vida foi profundamente marcada quando, ao final de 1978, o jornal da 22h da Globo veiculou uma cena do filme: aquela em que a gangue de Alex adentra ao leite-bar Korova após estuprar e esposa do escritor. Nesta cena Alex agride Dim. A estética me marcou intensamente. Percebi no ato que se tratava de uma obra de vanguarda, revolucionária. A partir daí coleciono tudo relativo ao filme. Laranja mecânica compõe uma parte importante da minha personalidade intelectual. Enquanto eu estiver vivo (e talvez até depois) vou repetidas vezes voltar a mergulhar no pesadelo dos senhores Kubrick e Burgess, com prazer. E com certeza cada vez retornarei com mais e mais ideias e reflexões, pois, a cada repetição uma nova “lavagem cerebral” ativa novos caminhos na minha mente.

Não há nota possível para o filme, 10 é apenas um número, reducionista em vista da perfeição. O infinito é o limite. Talvez aí seja possível quantificar a Laranja Mecânica – com ou sem bolas pretas.

  

domingo, 6 de novembro de 2011

Evanescence: Amy Lee e sua banda chegam ao terceiro álbum em inquestionável maturidade.

Evanescence – Evanescence.

Há alguns anos fui ao cinema assistir ao filme “Demolidor” com Ben Affleck e Jennifer Garner. Confesso que nunca fui fã do Demolidor, mas da Elektra sou grande admirador – as duas melhores “graphic novel” que já li são as espetaculares “Ronin” e “Elektra - assassina” ambas roteirizadas pelo Frank Miller e a segunda ilustrada pelo assombroso “Bill Sienciewicz”. Curioso para ver o que iam fazer com a Elektra na tela assisti ao filme e, ao final da projeção fui brindado por uma música lindíssima que terminava o filme marcada por um vocal feminino de uma beleza arrebatadora. Que grupo seria aquele?

Dias mais tarde descobri que se tratava do quinteto americano Evanescence liderado pela Princesa Gothic-New Age Amy Lee. A música a trilha do “Demolidor” era “Bring me to life”. Comprei o disco e não teve mais volta. Me apaixonei perdidamente pelo Evanescence. Uma das mais perfeitas músicas Pop Metal que já ouvi foi a perfeita “Going Under”. Em êxtase completo assisti ao show deles em Porto Alegre em 17 de abril de 2007, confesso que poucas vezes delirei tanto em um show.




OK, vamos lá, sou fã declarado do Evanescence e agora, quando vi a performance deles (ou melhor, dela, e banda) no Rock In Rio fiquei impressionado com as novas músicas marcadas por uma maturidade inquestionável. Trata-se do terceiro álbum do Evanescence lançado por uma gravadora "major" e o estilo da banda está mais definido.

Encomendei o disco e demorou para chegar, não sei se já foi lançado no Brasil. Recebi o cd (claro, comprei a edição de luxo com DVD) e estou cada vez mais impressionado com a qualidade do som.

Amy Lee está cada vez melhor (e mais linda – é só ver as fotos abaixo). O disco é fortíssimo . As guitarras apresentam alto peso e definição (quero comprar uma distorção dessas – o que será que eles usam?). As bases são absurdamente bem executadas e o vocal da srta. Lee está lindo, profundo, pesado, altíssimo e impecável e descreve melodias complexas com refrãos inesperados.




Os pianos estão cada vez mais apaixonados e cortam o peso como os cacos de um espelho que se parte. Belíssimos e colorindo as composições com brutais contrastes dinâmicos juntam-se ao metal em raro bom gosto. Aliás, bom gosto é a palavra que melhor define este trabalho do Evanescence. Em nenhum momento o disco cai do nível do perfeito.

A paulada bate forte em “Never Go back” pegada metal de primeira. O grande instrumental acompanha a voz da Princesa que suspira e chora em uma das mais pesadas músicas do disco.

Trabalhando em uma fusão do melhor do heavy metal e new age a banda atinge tópicos apoteóticos. É o disco em que a banda soa mais como si mesma, com poucas influências. O disco aponta para o som que o Evanescence tendo a construir nos próximos anos – e é muito bom! Outra característica da Amy Lee como compositora é a influência marcante da  New Age o que várias vezes lembra o lindo trabalho de Tori Amos.





Destaco (se possível, pois, o disco é muito homogêneo): “What You Want”, “Made of Stone”, a lindíssima “My Heart is Broken”, “The Other Side”, “Sick”, “End of a Dream” (chega...vou citar o disco todo)

A única coisa que acho que pode ter mais são solos de guitarra. As bases são maravilhosas, mas, bons solos e mais instrumentais só iriam elevar o Evanescence ao nível de obras como o nervoso “Slave to the Grind “ do Skid Row ou “Empire” do Queensrÿche.

Magnífico exemplar que já entrou para minha história pessoal (tanto quanto o cd ”Fallen”) já indico o terceiro “Evanescene” para um dos 5 grandes discos do ano – provavelmente o vencedor. Amy Lee está cada vez melhor. Estou cruzando os dedos para ver o show ao vivo deles em breve. Se na outra vez precisei de “soro” para ressuscitar, desta vez vou ficar vários dias sem saber em que planeta estou....nota 10,00 (existe uma nota maior???)

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Disco que mudaram minha vida - parte I

       DISCOS QUE MUDARAM MINHA VIDA – PARTE I:

Alô pessoal. Hoje vou iniciar uma atividade que tenho realizado no Facebook que me tem sido muito prazerosa. Ao organizar meu acervo de CDs resolvi postar no Face, para cada banda/cantor/cantora e outros na minha estante, o CD que marcou uma época na minha vida. Atenção: não é necessariamente o melhor Cd de cada área (discoteca essencial), nem o que mais gosto, mas, aquele que por alguma razão, pelo próprio momento histórico em que cruzou meu destino marcou por algum motivo. Uma festa, um show, um especial da TV, uma pessoa, um bar que abriu...etc. Aqui faço uma restrospectiva da minha história pessoal, contada por meio dos discos comprados e ouvidos os quais me fazem lembrar com carinho as passagens da minha vida.  Aos bem-vindos que visitam o Blog e não me conhecem ou não têm um contato mais próximo comigo espero que sintam pelo menos uma curiosidade pela música aqui apresentada. Abraço para todos e “boa viagem musical”...

       1. The Beatles: 1962 – 1966 (red); 1967 – 1970 (blue):


     Pra comecar - a Melhor Banda de todos os tempos. Ninguém supera (e acredito que ninguém jamais superará) "The Beatles". O primeiro disco de rock que eu ouvi na vida (que me recordo) foi o "Red album". Eu devia ter uns 8 anos. Minhas faixas favoritas eram “All my Loving” e “Can't Buy me Love”. Algumas semanas mais tarde depois retornei à minha cidade e encomendei o álbum. A loja se equivocou e recebeu o "Blue album". Pensei que era o mesmo disco e levei para casa. Ao ouvir percebi que eram outras músicas. A princípio me decepcionei um pouco, mas encontrei no "Blue album" uma música que estava procurando. Tratava-se de “All you Need is Love”. Até hoje, na minha opinião, a melhor música do quarteto. Com o tempo descobri que considero "Blue album" superior e mais maduro do que o "Red" mas ambos são essenciais.



        2. Yes - Yesshows:






Voltando de férias vi na estante da loja o disco que me revelou o Yes. Yesshows marcou, e muito a minha vida. É, na minha opinião, o melhor album deles ao vivo. Impecável . Abre com a lindíssima “Parallels” e inclui uma execução de “The Gates of Delirium”, magnifica e longa obra que finaliza com a melancólica “soon”. Perfeito, digno da qualidade do Yes


3. Jethro Tull – Thick as a Brick:


     
   Jethro Tull tem um catálogo de discos imenso. Mas, entre as pérolas de estúdio vou destacar o primeiro disco que comprei deles. Foi em uma promoção que consegui esta magnífico disco, nos idos de 1980-1981. Obra longa (dois lados ininterruptos com tempo médio de 22 minutos cada). Melodias geniais conduzidas pela grave voz do duende Ian Anderson. Ótimo disco para ouvir num domingo chuvoso.  



4.   Pink Floyd – Animals:


     

     Magnífica banda! Ok, The Wall pode ser a obra mais conhecida do grupo e, talvez, uma das melhores, mas, um disco que me marcou foi o primeiro Lp que comprei deles. Na época eu tinha poucos discos (1980 – início da minha coleção). Para dizer a verdade eu tinha apenas 4 discos: "The Who - Live at leeds", "The Who - The Kids are Alright", "Black Sabbath - Master of Reality" e este aqui, ou seja, só coisa fina. O disco estava em um estado lastimável, mas, foi o suficiente para apreciar a ótima “dogs” e a sintetizada “sheep”. Nota 10.


5. Queen – The Game:
     



     Fundamental para mim, pois o Queen foi a primeira banda que colecionei. Ok, “A Night at the Opera” é o melhor disco, mas “The Game” me emocionou quando vi o artístico clip de “Save Me” no Fantástico no final dos 80. O clip é concebido com desenhos sobrepostos onde uma mulher lê uma carta de amor e se joga de uma ponte se transformando em uma pomba (eu sei, pode ser brega, mas, ninguém é brega com tanta classe, inteligência, arte e bom gosto com o Queen). Òtimo disco!



6. Led Zeppelin – Physical Graffiti:



    
     Considero "Physical Graffiti" o melhor álbum do Led Zeppelin e pra mim um dos discos que eu levaria para uma ilha deserta. Se vc está passando fome e tem esse disco - é capaz de esquecer tudo. Na primeira vez que ouvi o disco não bateu, mas, ano após ano me convenço cada vez mais que este é o disco definitivo do Led (tá certo, o I, o II, o II , o IV .... - chega, senão vou citar todos - também são pefeitos, mas, este aqui é pra ouvir pra sempre...).


7. Black Sabbath – Born Again:




 
      Muita gente "torce o nariz" para o Born Again - mas acho um dos álbums em que o Sabbath melhor atingiu os climas de terror a que se propunham. Gillan pega pesado em "Disturbiing the Priest" e "Trashed" mas, a força do disco reside mesmo na perturbadora "Zero the Hero" onde o baixo de Geezer Butler conduz com precisão grave os ritos do "demo". Impecável!

    

8. Genesis - Duke:




    
Do Genesis não posso deixar de citar o primeiro disco que ouvi em uma loja de um supermercado. Em pleno início dos anos 80 todos atribuíam ao Genesis o rótulo de banda "discoteca" (provavelmente em função da musíca "Follow you Follow me" ter saído na trilha sonora de uma novela). Resolvi conferir, pois, não aceitei que uma banda progressiva não tivesse um trabalho interessante. Fiquei extasiado com os teclados que iniciam "Duke" na maravilhosa "Behind the lines". O resto é só ouvir para sacar som de alta qualidade.


9. King Crimson –Lizard:




  


     Mesmo não sendo o clássico definitivo da banda, "Lizard" do King Crimson me fez entender a proposta progressivo-cabeça do Sr. Robert Fripp. Gol de placa do Crimson. Melhor se escutado ininterruptamente do início ao fim. Grande particiapção do Jon Anderson do "Yes" na faixa-título. Vale a pena ter em vinil para apreciar (com uma lupa) cada detalhezinho da capa...Arte pura!



 10. Uriah Heep – live – january 1973:








    


     Do Uriah Heep, não tenho outra opção senão o Live 73. Depois de muito procurar - encontrei a versão em vinil importada com o livreto original. Um dos melhores álbuns ao vivo de heavy metal. O que seria do faith no more sem os climas criados pelo Uriah Heep...